18 de ago. de 2011

ALEXANDRA, A ÚLTIMA CZARINA



Não se sabe porque a  czarina  Alexandra Feodorovna, nascida em 6 de junho de 1872 num Ducado pertencente ao Império Alemão,  e batizada como Alice Vitória Helena Luísa  Beatriz de Hesse e do Reno, neta da Rainha Vitória da Inglaterra, tendo todos os privilégios de uma mulher de sua época, se tornou tão tímida, reservada, e por que não dizer, mau humorada.
 
É verdade que sua irmã May morreu aos  4 anos, logo seguida de sua mãe, de uma onda de difteria que assolou a região. Órfã aos 6 anos de idade, tornou-se muito próxima da avó , a Rainha Vitória passando a viver na Inglaterra, onde ficou durante toda a infância. Consta que antes da morte da irmã e da mãe , tinha o apelido de Sunny,  mas tornou-se amarga e solitária após os acontecimentos. Devido a pouca idade de Alix, como era chamada, acreditamos que era mais de sua própria natureza o temperamento introspectivo, agravado, é claro, pelo acontecimentos.
 
Alice casou-se relativamente tarde tendo em conta a idade própria para casar na época.  Contribuiu para isso  o fato de ter-se recusado a casar-se com o Príncipe Alberto Victor, também neto da Rainha Vitória. Houve forte pressão familiar para que tal união acontecesse, mas Alice já havia conhecido o czarevitch da Rússia, numa festa, tendo por ele se apaixonado, no que foi correspondida. Ele também era aparentada com sua família. Aliás, na Europa daquela época as casas reinantes eram todas aparentadas.

A Rainha Vitória acatou a decisão de Alix, chegando, mesmo a afirmar que estava orgulhosa da sua neta  enfrenta-lá, algo que muitas pessoas, incluindo o seu próprio filho, não se atreviam a fazer. Aí está mais uma pista do caráter de Alice: teimosia? obstinação? força de vontade?

No princípio, o pai de Nicolau, o Czar Alexandre III rejeitou a possibilidade do casamento. Mas seu filho estava apaixonado. A   Sociedade atacava abertamente a Princesa Alice, mas não aprofundavam o assunto, uma vez que tinham certeza de que o Czar e  sua esposa, a Imperatriz Maria, eram totalmente anti germânicos e não iriam permitir o casamento de seu filho com uma princesa alemã.

Era do conhecimento geral que Alexandre III preferia para nora, a Princesa Helena, filha do Conde de Paris, e herdeira do extinto trono da França. Mas a Princesa tambem não quiz o casamento, devido a questões religiosas. Com a saúde do filho deteriorando-se, e tendo em vista os acontecimentos, o Czar consentiu no casamento. 
 

CASAMENTO E COROAÇÃO
Enfrentado as  muitas opiniões contrárias,  Alice, que mudou o nome para Alexandra e se converteu  à Igreja Ortodoxa Russa, casou-se com Nicolau em 26 de novembro de 1894. O casamento realizou-se na Capela  do Palácio de Inverno em São Petersburgo. Foi um casamento sereno, vitoriano, mas baseado num amor físico e apaixonante. A essa altura, Nicolau já era Czar, pois seu pai, Alexandre III, havia morrido em 01 de novembro daquele mesmo ano. Deu-se então um fato curioso: como Alexandra acompanhou a família imperial quando esta regressava a São Petersburgo e, como a morte de Alexandre III havia ocorrido pouco antes,  ela foi cumprimentada pelo povo russo com sussurros uníssonos que diziam: "Ela chega-nos atrás de uma caixão."


 No mais quis o destino que logo depois do casamento e das coroações acontecesse uma trajédia: milhares de pessoas morreram em Moscovo quando pensaram que não haveria presentes comemorativos da coroação para todos. A polícia foi chamada, mas à tarde os hospitais estavam lotados de feridos e todos sabiam o que tinha acontecido. Deu-se um impasse: Nicolau e Alexandra ficaram chocados e o novo czar declarou que não poderia ir ao baile organizado pelo embaixador francês para aquela noite. No entanto, os seus tios imploraram para ele ir pois, caso contrário, ofenderia os franceses. Tragicamente, como aconteceria muitas vezes ao longo do seu reinado, Nicolau assentiu e foi ao baile com a esposa. Foi comentado  por Sergio Witte: "Estávamos à espera que a festa fosse cancelada, mas em vez disso, decorreu na mesma, como se nada tivesse acontecido e o baile foi aberto por Suas Majestades a dançar graciosamente."
 
Foi uma noite dolorosa. "A imperatriz apareceu em grande angústia, com os olhos avermelhados das lágrimas", escreveu o Embaixador Britânico à Rainha Vitória. Muitos russos viram o desastre como um presságio de que o reinado seria infeliz. Outros, mais sofisticados ou mais vingativos, usaram a tragédia para expor a falta de humanismo da autocracia e a completa superficialidade do czar e da sua "mulher alemã".

Alexandra era odiada na corte e pelo povo russo. Quando apareceu pela primeira vez,  estava calada, de aparência fria, arrogante e indiferente. Ficou magoada pela sua recepção muito pouco entusiasta e afirmou estar cansada da perda de morais e etiqueta da corte russa.


VIDA NA CORTE RUSSA
 

Durante um baile, Alexandra reparou numa jovem mulher  que, na sua opinião, tinha o decote demasiado baixo.  Uma dama-de-compainha foi logo despachada com a seguinte mensagem: "Minha senhora, Sua Majestade deseja informá-la de que em Hesse-Darmstaddt não usamos nosso vestidos dessa maneira." A mulher respondeu: "Sério?, ao mesmo tempo que puxava o decote um pouco mais para baixo. "Então, diga a Sua  Majestade  que na RÚSSIA é assim que usamos os vestidos."
 
Ninguém poderia mesmo imaginar que houvesse quem simpatizasse com tal intrometida. Como diríamos hoje: "Podia ter dormido sem essa." Brincadeiras à parte, esse incidente dá o tom do relacionamento que reinava entre  Alexandra e  seus súditos, mesmo sendo da nobreza.
 
Mesmo muito afeiçoados entre si, a impressão que o casal  passa é a de não conseguir ser simpático ao povo. Alexandra fez poucas tentativas de formar laços de amizade com a  grande família Romanov, e em geral frequentava o menor número de reuniões da corte possível. A Imperatriz era negativamente comparada à mãe do Czar, Maria Feodorovna. Na Rússia, Maria ofuscava a sua nora, ao contrário do que ocorria na maior parte das cortes européias  A atitude teimosa de Alexandra não lhe permitia que aprendesse nada com sua experiente sogra, que a poderia ter ajudado muito. Maria Feodorovna tinha vivido 17 anos na Rússia antes de subir ao trono enquanto que Alexandra tinha passado pouco mais de um mês no país antes de se casar.


A tia da czarina, Vitória, disse numa carta à Rainha Vitória que " a Alice é muito autoritária e insiste em ter tudo feito à maneira dela. Ela nunca vai conseguir manejar nem um pouco do poder que ela acha que tem..." De fato, Alexandra era fortemente protetora do papel de seu marido como Czar e apoiava ativamente o seu direito de governar de forma autocrática, apesar da Russia já ser uma monarquia constitucional, como acontecia no resto Europa. Mas a Rússia ainda conservava muito de seus hábitos absolutistas e  a czarina defendia com fervor o direito divino de seu marido governar e acreditava ser desnecesssário  pensar na aprovação de outras pessoas.
 
Para o povo russo, Alexandra era uma alemã fria que não conseguia ver a necessidade daqueles que a rodeavam a não ser que fossem da família, tal e qual o seu marido e, até certo ponto, tinham razão. Desde sua infância tinha sido muito tímida, uma característica que partilhava com sua avó Vitória. Ela odiava aparições públicas e as evitava, aparecendo apenas quando era absolutamente necessário.  Alexandra preferia retirar-se para trás da ação, oferecendo o caminho a sua sogra. Essa timidez e desejo de estar sozinha tiveram um grande impacto nos seus 5 filhos e no Império. Ela nunca se esforçou para ser amada pelo povo russo.
 
Quase um ano depois do  seu casamento, Alexandra deu à luz uma filha, Olga.  Ela não poderia herdar, pois o trono estava reservado para um filho homem. Mas foi motivo de muita alegria para seus pais que chegaram a afirmar que preferiam uma menina, porque se fosse um rapaz ele pertenceria ao povo russo, enquanto uma menina pertencia só a eles. Tiveram ao todo 5 filhos, sendo 4 meninas primeiro e o  tão sonhado herdeiro,  o caçula. Foi uma trajédia todos terem sido assassinados no mesmo dia. As filhas:
 









Grã-duquesa Olga Nikolaevna,assassinada  aos 22 anos, em 17 de julho de 1918.

Grã-duquesa Tatiana Nikolaevna, assassinada aos 21 anos, na mesma data.







 

Grã-duqueza Maria Nikolaevna  assassinada aos 19 anos, na mesma data. Discutiu-se sua possível sobrevivência ao massacre que vitimou a família até o seu corpo ser descoberto em 2007.
Grã-duquesa Anastácia Nikolaevna, assassinada aos 17 anos, na mesma data. A sua possível sobrevivênciafoi discutida até 2007 e foi um dos maiores mistérios do séc. XX.

Grão-duque Czarevich Alexei, assassinado aos 13 anos, na mesma data. Também no seu caso discutiu-se uma possível sobrevivência até o seu corpo ser descoberto em 2007.

Todos foram assassinados pelos bolcheviques em Yekaterinburg e todos foram porteriormente canonizados pela Igreja Ortodoxa Russa. Nenhum deixou descendentes.

A filha mais velha, Olga, dava-se melhor com o pai. Era tímida e submissa e impressionava as pessoas com a sua bondade, inocência e a força de seus sentimentos privados. Gostava muito de ler,  tanto ficção como poesia.

Alexandra era muito mais próxima de sua segunda filha, Tatiana. Tanto em público, como em privado, Tatiana rodeava sua mãe de atenção. Durante os últimos meses da família, Tatiana ajudava sua mãe a mudar de lugar para lugar, passeava-a pela casa em sua cadeira de rodas, tentando animá-la.

Maria gostava de falar em casamento e filhos e Anastácia, a mais nova e mais famosa, era ainda um pequeno diabrete. Em privado tratavam os pais de "papá" e"Mamã", mas em público tratavam-nos por "Imperador" e "Imperatriz. Em 1917  quando de suas apresentações à Sociedade, as irmãs tinham florescido e se tornado em jovens mulheres cujos talentos e personalidades, como o destino decretou, nunca seriam totalmente reveladas.
   
ALEXEI E A HEMOFILIA NAS FAMÍLIAS REAIS EUROPÉIAS
 

Bom, não bastasse ser tímida, introvertida, reservada, autoritária, defensora do direito divino dos reis, "para mim tudo para os outros nada", vivendo no fausto e luxo de uma verdadeira torre de marfim, materializada sob a forma  dos diversos palácios dos Romanov, alheia a tudo e a todos  a não ser sua pequena família, Alexandra ainda teve outras trajédias em sua vida. Além do seu próprio estilo de ser, que era por si só uma trajédia, como dito acima, ficou órfã de mãe aos 6 anos de idade. Muita gente fica. Casou-se com o noivo escolhido por ela, mas infelizmente ele era o czar e ela teria obrigações que nunca cumpriu, preferindo ficar isolada e odiada por todo um povo.
 
É lógico que o povo esperava por um herdeiro o mais rápido possível, mas ela  só o conseguiu depois de ter dado à luz 4 filhas. Aí sim, Alexandra cumpriu seu papel mais importante como czarina. E aí começou a verdadeira trajédia de sua vida, pois, o bebê quando caía ou encostava em algum móvel, as suas nódoas não saravam e o seu sangue demorava muito a estancar. Alexei sofria de hemofilia, doença que só podia ser transmitida pelo sangue materno. Geralmente a hemofilia era fatal no início do séc. XX e tinha entrado nas casas reais européias através das filhas da Rainha Vitória, que era, ela própria, portadora do gene. Vários de seus sobrinhos morreram por causa da doença.
 
Sendo a doença incurável e uma constante ameaça à vida, tomou-se a decisão  de manter o estado de saúde de Alexei escondido do povo russo. Como  portadora é provável que tivesse uma coagulação mais baixa do que o normal. Somando-se isso à constante preocupação com o filho e à um provável sentimento de culpa(sem motivo) pode ter dado o motivo para  sua suposta saúde fraca.
 
Alexandra era totalmente devotada ao filho, que era o centro de suas atenções. Tendo de viver com o conhecimento que lhe tinha transmitido a doença sanguínea, Alexandra vivia obcecada com a idéia que tinha de proteger o filho e mantinha um olho  em cima dele o tempo todo.

A czarina voltou-se para os médicos russos para tratar de Alexei, mas os tratamentos geralmente falhavam, uma vez que não era conhecido nenhum tipo de cura. Sofrendo com o fato de saber que qualquer queda ou corte poderia matar seu filho, a Imperatriz recorreu a Deus, passando horas e horas a rezar em sua capela privada, o que a levou a familiarizar-se com os rituais e Santos da Igreja Ortodoxa.
 
Quando o estado de saúde de Alexei se agravou e foi finalmente tornada pública, Alexandra tornou-se uma figura ainda mais odiada pelo seu povo. Em seu desespero, Alexandra começou cada vez mais a confiar em místicos e nos chamados "homens santos". O palco estava armado para a entrada de Rasputin, que tanto mal fez à dinastia que se deteriorava. Foi mais uma trajédia na vida da Czarina.


RASPUTIN
 Foi então que apareceu Rasputin, uma figura meio lendária, dessas de quem a gente diz: "Yo nó creo en brujas, pero que las, las hay." Sua trajetória teve início na década de 1860, na Sibéria. Era pobre e apenas parcialmente alfabetizado, provavelmente ajudava o pai camponês nas suas tarefas diárias. Nas horas livres divertia-se com brigas, bebidas e mulheres, envolvendo-se em brigas com vizinhos. Por esse motivo logo ganhou o apelido de Rasputinik, que equivalia a pervertido.
 
Sua terra natal era de religiosidade e misticismo muito intensos. O jovem Rasputin cresceu influenciado por essa atmosfera. Conta-se que na sua juventude já dava sinais de possuir uma percepção especial, ou capacidade de prever fatos futuros. Começando a viajar pela Rússia,  entrou em contato com uma seita conhecida como Flagelantes, que pregava que o ato sexual era uma forma de obter a salvação espiritual.


Por onde Rasputin passava, os habitantes procuravam-no em busca de suas bênçãos; em troca, ofereciam-lhe comida, roupas e dinheiro. Logo sua fama de "homem santo" disseminou-se na Europa Central. Rasputin contava que, um dia, arando a terra, apareceu-lhe um anjo, dando-lhe a missão espiritual de ajudar os necessitados.
  
 O BRUXO DOS CZARES
Pergunta-se: como uma pessoa de origem tão humilde chegou a entrar em contato com o casal real? Ele chegou pelas mãos de Anya Vyrubova, amiga próxima da czarina. Em 1905 Anya feriu-se gravemente quando o trem em que viajava descarrilhou-se. Desenganada pelos médicos, Rasputin foi chamado. O místico, ajoelhado junto à cama, segurou-lhe a mão e chamou seu nome ineterruptamente, por horas seguidas, até que a vítima, de forma inexplicável, despertou.
 
Assim, sempre que o estado de saúde do czarevich piorava, Rasputin era imediatamente solicitado e ajoelhava-se ao lado do leito da criança, por horas  seguidas, se necessário. E Alexei sempre melhorava. 

A verdade é que Grigori Rasputin, assassinado em  1916, foi um dos personagens mais enigmáticos e espantosos do período que antecedeu a Revolução Russa em 1917. Era uma mistura de homem santo milagreiro com o charlatanismo, que, sem ter nenhum cargo no governo imperial russo , exerceu uma enorme influência na dinastia Romanov.
 
A corte em São Petersburgo  era pródiga com os advinhos, os ilusionistas, os hipnotizadores e os charlatões que encontravam junto ao casal real uma  simpática acolhida. Quanto mais o regime era  isolado e odiado pela multidão, mais Nicolau II e sua   mulher se cercavam de gente estranha, apelando crescentemente para o sobrenatural e para as forças do além, incapazes que eram de lidar com a situação.
 
Rasputin, porém, foi diferente dos demais, pois ele ultrapassou todos os limites. Os pequenos acidentes do czarevich, devido à hemofília, colocavam a família em polvorosa. A czarina se contorcia em culpas,  e esquecendo do  povo russo e de sua situação real, entregava-se cada vez mais nas mãos daquele que seria em grande parte a causa de sua ruína. Foi numa terrível crise  de Alexei, com o menino já quase A MORTE, que brilhou a estrela de Rasputin.

 

                                              Por incrível que pareça aquele camponês rude e analfabeto tinha entrada livre no palácio real, onde era visto  como uma força viva da natureza e  legítimo representante da Santa Rússia. Com enorme concentração e profusão de preces ditas num idioma incompreensível, ajoelhado ao lado do leito do garoto, Rasputin conseguia fazer sempre que o adoentado se recuperasse. Para a família real ele passou a ser um enviado de Deus. E para qual  família não seria? Pois  rudeza, bebedeira, mulheres,etc., à parte, ele conseguia que o menino melhorasse.  E para Alexandra, como mãe, isto é o que valia.
 
A sua consagração junto aos soberanos - como homem santo oficial - fez com que cessassem os seus tempos de peregrinação, fome e vagabundagem. Doravante estaria à disposição dos monarcas a qualquer momento. Não demorou muito para aquele homem esperto  e vivo tirasse todo o proveito possível daquela situação. Na correspondência da czarina com seu marido, ele é referido como o "Amigo." Não havia nomeação, transferência ou decisão importante a ser tomada por Nicolau II sem que ela rogasse que "escutasse o Amigo". Sabe-se que geralmente com sucesso. O fato é que o enorme império dos Romanov, o maior em extensão em toda a Terra, passou a ser indiretamente regido por um bruxo.

Grigori Rasputin assumiu de forma irônica o apelido pejorativo que lhe foi dado; foi um camponês que, sem cultura, poder político ou financeiro, alcançou um dos mais altos postos do governo russo. Não é possível afirmar que ele possuía realmente "dons especiais", mas o fato é que toda a sua vida foi alvo de especulações. Toda a sua biografia é repleta de lacunas, mas, com certeza, são essas incertezas que fazem de Rasputin um dos personagens mais intrigantes e misteriosos da história recente da humanidade.

Em 1915, consta que Rasputin convenceu Alexandra a que o czar devia partir para a frente de batalha, para se encarregar pessoalmente do Comando do Exército. Assim ele teria passe livre no palácio, já que a Alexandra fazia tudo que ele queria.  Nicolau deixou a czarina como regente, e durante os dois anos e meio que se seguiram  o governo russo deteriorou-se mais rapidamente que em qualquer período da história.
 
A Imperatriz teria dito  ao embaixador britânico: "Não tenho paciência com esse ministros que o tentam impedir (Rasputin) de cumprir o seu dever. A situação exige firmeza. O Imperador, infelizmente, é fraco, mas eu não e pretendo manter-me firme."

Assim, enquanto o país afundava-se no desastre e no desespero, os cortezãos mais próximos do czar  passaram a não poder mais suportar  as intromissões de Rasputin nos negócios do governo. Alguma coisa tinha de ser feita. E foi. Logo armou-se um plano do qual faziam parte a alta nobreza, até mesmo um membro da família real, o grão-duque Dimitri. Para resumir, na casa de Félix Youssoupov ofereceu-lhe uma série de brindes contendo cianureto. Em determinada altura Rasputin arriou. Caiu no sofá, resvalando para o chão. Havia no vinho e nos doces oferecidos cianureto capaz de matar um cavalo, mas qual não foi a surpresa de Youssoupov quando deparou com Rasputin erguendo-se do chão, quando já o julgava morto. O príncipe disparou duas vezes em Rasputin. Vladimir Purishkevitch descarregou sua arma sobre o corpanzil de Rasputin, que naquela altura ensaiava uma fuga. Bom, os conjurados conseguiram amarrar o corpo de Rasputin, que ainda tentava resistir, fizeram um buraco no congelado rio  Neva, onde finalmente Rasputin encontrou a  morte, em 1916.

Conta-se que Rasputin tinha previsto sua morte e profetizado uma tragédia. Numa carta enviada ao czar, o bruxo dizia que se Nicolau ou qualquer membro de sua família tivesse a intenção de assassiná-lo, nem o czar nem ninguém de sua família viveria por mais de dois anos. Profecia ou não, o fato é que dezenove meses após a morte do místico, o czar e toda a sua família foram executados por revolucionários bolchevistas.

REVOLUÇÃO E EXÍLIO
 A grave situação política e econômica do país acabou por resultar na Revolução de Fevereiro de 1917.

Num esforço para por fim aos acontecimentos que se desenrolavam na capital, Nicolau tentou chegar à São Petersburgo, contudo o seu caminho foi bloqueado em Pskov onde, depois de ser aconselhado por todos os seus generais, abdicou por si e por seu filho Alexei.

A partir daí, foi só ladeira abaixo, de rebaixamento a rebaixamento, humilhação a humilhação, até a perda da própria vida.

Alexandra ficou numa situação perigosa, como esposa do Czar deposto, odiada pelo povo russo. Nicolau finalmente recebeu autorização para regressar ao Palácio de Alexandre em Czarskoe Selo, onde ficou sob prisão domiciliar juntamente com sua família.


O Governo Provisório, formado depois da revolução, manteve Nicolau, Alexandra e seus filhos limitados a residência  no Palácio de Alexandre, até serem  deslocados para Tobolsk a 1 de agosto de 1917, uma decisão tomada com o objetivo  de manter a família afastada da capital e do perigo.

Alexandra e sua família  permaneceram em Tobolsk até depois de Revolução de Outubro, mas acabaram por ser deslocados pelos  bolcheviques para a cidade de Ekaterinburgo em abril de 1918 onde ficaram na Casa Ipatiev, sua última moradia.

Alexandra e Tatiana
A Casa Ipatiev  era guardada constantemente por 75 homens. Para os Romanov a vida tornou-se um pesadelo de incerteza e medo. A família Imperial nunca soube se iria lá continuar no dia seguinte, se seriam separados ou até mortos. Os privilégios que lhes eram permitidos eram poucos. Durante uma hora, à tarde, podiam se exercitar no jardim morto sempre sob  vigilância apertada dos guardas. Alexei não podia andar depois de outro ataque de Hemofilia, por isso era o seu marinheiro Nargony que o transportava. Alexandra raramente se juntava à família nessas atividades.  Geralmente passava a maior parte do tempo em sua cadeira de rodas lendo a Bíblia ou o livro de São Sulpício. A noite os Romanov jogavam cartas  ou liam. Recebiam muito pouco correio do mundo exterior e os únicos jornais permitidos eram edições já ultrapassadas.


Palácio de Inverno
FAMÍLIA ROMANOV
Não há dúvida que deixar o Palácio de Inverno  pela casa Ipatiev foi uma longa descida, um longo martírio...Houve muita dor, muita humilhação, e um desapego conseguido por forças das circunstâncias...enfim, um longo calvário que terminaria na noite de 17 de julho de 1918. Naquela noite, os guardas praticamente tiraram a família real da cama  com o pretexto de tirar uma fotografia não sei para quem. À eles, só restava obedecer sem nenhuma  reclamação. E assim foi feito. Desceram todos ao porão da casa, onde ficaram juntos, quando viram os guardas entrando e começando a atirar. Não houve tempo para nada.


CASA IPATIEV
Ocorre que a tzarita e as meninas tinham jóias costuradas nos coletes que usavam por baixo das roupas e a impressão, para os guardas, é que atiravam e as balas ricocheteavam. Esse fato apavorou os guardas, pois de certo modo eles tinha sido educados para acreditar que a família real governava por direito divino e estavam de certa forma protegidos por Deus. Usaram então as baionetas, mas como essas não deram conta  de todo o grupo, atiraram em suas cabeças.

VEDAÇÃO DE MADEIRA DA CASA IPATIEV
Alexandra, última czarina da Rússia, o maior império existente então na Terra, morria assim aos 48 anos.
 




PORÃO DA CASA IPATIEV APÓS O ASSASSINATO DA FAMÍLIA ROMANOV
Da Casa Ipatiev os corpos foram levado para uma floresta próxima num caminhão, onde puseram fogo em seus corpos e os enterraram numa gruta. Deram por falta de dois dos corpos, mas julgaram que havia caído no caminho, e não havia tempo de procurá-los pois estavam envolvidos numa missão secreta. Isso deu margem a lenda que uma das filhas e o czarevich haviam escapado do massacre que vitimara sua família.
 
Bom, moral da história: passados muitos anos, em 1891, a família foi reconhecida como mártir e canonizada pela Igreja Ortodoxa Russa.

Em 1998 os corpos foram finalmente enterrados na Catedral de São Pedro e São Paulo, em São Petersburgo.

Em 2008 o Supremo Tribunal Russo decidiu que o assassinato da família imperial foi um ato político e que a família do czar devem ser consideradas vítimas do bolchevismo.

ELES ERAM INOCENTES DE QUALQUER CRIME E DEVEM SER  LEGALMENTE REABILITADOS.
 
Moscow decidiu que a sua morte foi ilegal. A decisão não pode mudar em nada a vida da família, mas representa um marco: foi o mais próximo de que qualquer governo pós-soviético tenha vindo a aceitar que a natureza  do governo bolchevique foi criminosa.

Quanto à  Casa Ipatiev, nos anos 70 tornou-se motivo de peregrinação para aqueles que queriam honrar a memória da família imperial. Então em 1978 o Politiburo declarou que a casa não tinha "valor histórico suficiente" e ordenou a sua demolição.

Após a queda da União Soviética" foi erguida uma cruz no local onde antes se encontrara o porão, de forma que não se esquecesse as atrocidades lá cometidas.

Assim termina a história de Alexandra, última czarina da Rússia, uma mulher comum, que embora nascido em berço de ouro e senhora de uma da maiores nações da terra, sofreu como mulher, como mãe e como esposa, padecendo as mesmas dúvidas e dores que quaisquer uma de nós - quiçá mais. 

Mais tarde foi construída a Igreja do Sangue Derramado de Todos os Santos perto do local, para que todos pudessem prestar sua homenagem aos Romanov.

27 de abr. de 2011

MULHERES QUE AMAM DEMAIS...

Quando amar  significa sofrer, estamos amando demais. Quando grande parte de nossa conversa  com amigas íntimas é sobre ele, os problemas, os pensamentos, os sentimentos dele - e aproximadamente todas as nossas frases se iniciam com "ele...", estamos amando demais.

Quando desculpamos sua melancolia, o mau humor, indiferença ou desprezo como problemas devido à uma infância infeliz, e quando tentamos nos tornar sua terapeuta, estamos amando demais.

Quando lemos um livro de auto-ajuda e sublinhamos todas as passagens que pensamos que irão ajudá-lo, estamos amando demais.

Quando não gostamos de muitas de suas características, valores e comportamento básicos, mas toleramos pacientemente, achando que, se ao menos formos atraentes e amáveis o bastante, ele irá se modificar por nós, estamos amando demais.

Quando o relacionamento coloca em risco nosso bem-estar emocional, e talvez até nossa saúde e segurança física, estamos definitivamente amando demais.






Apesar de toda dor e insatisfação, amar demais é uma experiência tão comum para muitas mulheres, que quase acreditamos que é assim que os relacionamento íntimos devem ser. A maioria de nós amou demais ao menos uma  vez, e, para muitas, está sendo um tema repetido na vida. Algumas nos tornamos tão obcecadas por nosso parceiro e nosso relacionamento, que quase não somos capazes de agir.
 
Esse tipo de relacionamento não satisfaz nossas necessidades, mas temos a maior dificuldade em acabar com eles. O fato de querermos amar, de ansiarmos por amor ou de amar em si torna-se um vício. Se você já ficou obcecada por um homem, você deve ter suspeitado que a essência daquela obsessão não era amor, e sim medo: medo de estarmos sozinhas, medo de não termos valor nem merecermos amor, medo de sermos ignoradas, abandonadas ou destruídas.

O processo de cura é muito difícil e leva muito tempo, mas se você decidir iniciar o processo de recuperação, você passará de  mulher que ama com doloroso sofrimento, para mulher que se ama o suficiente para suprimir a dor.

Vou listar aqui as características das muheres que amam de demais:
 
1.Você vem de um lar desajustado em que suas necessidades emocionais não foram satisfeitas.
Necessidades emocionais não se refere somente à necessidade de amor e afeição. Mais crítico é o fato de suas percepções e sentimentos terem sido ignorados ou negados, em vez de aceitos e legitimados.

2. Como não recebeu um mínimo de atenção, você tenta suprir essa necessidade insatisfeita através de outra pessoa, tornando-se superatenciosa, principalmente com homens aparentemente carentes.

Quando garotinha, você provavelmente voltou sua atenção para sua boneca favorita, nessa situação. Ninando-a e confortando-a, você indiretamente recebeu a atenção de que necessitava. Quando adultas, tornam-se mulheres que fazem a mesma coisa: sentem-se atraídas por pessoas carentes, identificando-se com sua dor e procurando aliviá-la para aliviarmos nossa própria dor.

3. Como não pode transformar seus pais nas pessoas atenciosas, amáveis e afetuosas de que precisava, você reage fortemente ao tipo de homem familiar mas inacessível, o qual você tenta, mais uma vez, transformar através de seu amor.

Não temos atração por homens saudáveis que poderiam nos ajudar. Eles nos parecem enfadonhos. Temos atração por homens que nos reproduzem os conflitos tidos com nossos pais, quando tentávamos ser boas, valorosas, prestativas e espertas o bastante para termos amor, atenção e aprovação daqueles que não podiam nos dar o que precisávamos, devido à seus próprios problemas e preocupações.

4.Com medo  de ser abandonada, você faz qualquer coisa para impedir o fim do relacionamento.

5.Quase nada é problema, toma muito tempo ou custa demais, se for para "ajudar" o homem com quem está envolvida.

6. Habituada à falta de amor em relacionamentos pessoais, você está disposta a ter paciência, esperança, tentando agradar cada vez mais.

7. Você está disposta a arcar com mais de 50 por cento da responsabilidade, da culpa e das falhas em qualquer relacionamento.

8. Sua auto-estima está criticamente baixa e, no fundo, você não acredita que  mereça ser feliz. Ao contrário, acredita que deve conquistar o direito de desfrutar da vida.

9.Como experimentou pouca segurança na infância, você tem uma necessidade desesperadora de controlar seus homens e seus relacionamentos. Você mascara seus esforços para  controlar pessoas e situações, mostrando-se "prestativa".
 
10. Você está muito mais em contato com o sonho de como o relacionamento poderia ser que com a realidade da situação.


11.Você é uma pessoa dependente de homens e de sofrimento espiritual.

12.Você tende psicologicamente e, com frequência, bioquimicamente, a se tornar dependente de álcool e/ou certos tipos de alimento, principalmente doces.

13.Ao ser atraída por pessoas que precisam  de solução, ou ao se envolver em situações caóticas, incertas e dolorosas emocionalmente, você evita concentrar a responsabilidade em si própria.

14. Você tende a ter problemas de depressão, e tenta prevení-los através da agitação criada por um relacionamento instável.

15. Você não tem atração por homens gentis, seguros e que estão interessados em você.  Acha que esses homens "agradáveis"  são enfadonhos.

Achamos que o homem instável é excitante, o não-confiável é desafiante, o imprevísível é romântico, o imaturo é charmoso e o intelectual  é misterioso. O homem inadequado precisa de nosso encorajamento, e o frio de nosso calor. Mas nãó podemos "consertar" um homem que é agradável como é, e, se ele é gentil e importa-se conosco, também não podemos sofrer. Infelizmente, se não pudermos amar demais um homem, normalmente não podemos amá-lo de forma alguma.

O CAMINHO PARA A RECUPERAÇÃO


Talvez você tenha percebido que amar demais é uma doença: qual é então o tratamento apropriado? Como deixar para trás aquela série de conflitos com ele, e  aprender a criar uma existência  rica e compensadora para si? E como se diferenciar das mulheres  que não se recuperam, que nunca são capazes de se livrar do atoleiro e da desgraça de um relacionamento insatisfatório?

As mulheres que se recuperam tomam certas atitudes para conseguirem isto. Segue uma listagem de comportamentos a serem adotados. Eles são simples, mas não são fáceis.

1.Procure ajuda.
 
2.Faça da própria recuperação a prioridade principal de sua vida.
 
Significa que você está disposta a seguir aquelas etapas necessárias para se ajudar, não importa o que lhe for exigido. Exige um compromisso total com você mesma. Considere-se importante e merecedora da própria atenção, do próprio cuidado.
 
3.Encontre um grupo de apoio formado por semelhantes que a compreendam.

4.Desenvolva a espiritualidade através da prática diária.
 
Não importa qual seja sua orientação religiosa, desenvolver a espiritualidade significa abandonar o auto-arbítrio,  a determinação de fazer as coisas acontecerem da forma que acha que deveriam acontecer. Em vez disso, deve aceitar o fato de que pode não saber o que é melhor para você em determinada ocasião. Auto-arbítrio significa acreditar que você sozinha possui todas as respostas. Abandonar o auto-arbítrio significa tornar-se disposta a permanecer onde está, aberta, esperando por orientação.

5.Pare de dirigi-lo e de controlá-lo.
 
Significa parar de tomar conta, de dar conselhos. O outro adulto a quem    você está auxiliando  e aconselhando possui tanta capacidade quanto você para conseguir um emprego, um terapeuta,etc. Você pode continuar a se importar com ele, mas não cuidar dele. Você permite que ele encontre o próprio caminho, da mesma forma que você está trabalhando para encontrar o seu. Se quer de fato ser prestativa, deixe de lado o problema dele e se ajude.

6.Aprenda a não se envolver em jogos.
 
7.Enfrente corajosamente os próprios  problemas e os próprios defeitos.
 
8.Cultive  em você quaisquer necessidades a serem desenvolvidas.
 
Isso signigica não esperar que ele se modifique para você continuar vivendo. Também significa não esperar apoio dele - financeiro, emocional,etc - para fazer qualquer coisa que queira. Em vez de tornar seus planos dependentes da cooperação dele, planeje como se não tivesse ninguém em quem se apoiar, a não ser você.

9.Torne-se "egoísta".
 
Significa tornar-se honesta consigo mesma,: requer que você reconheça que seu valor é imenso, que seus talentos são dignos de expressão, que sua realização é tão importante quanto a de qualquer pessoa, e que seu bom caráter é o maior presente que você pode oferecer para o mundo como um todo, especialmente para os seus íntimos.
 
10.Partilhe com outras pessoas o que você experimentou e aprendeu.

Quando você encontrar uma pessoa de passado parecido com o seu, você deve falar de sua própria recuperação sem necessidade de coagir aquela pessoa a fazer o mesmo que você  fez. Aqui não há mais espaço para dirigir ou controlar.


A recuperação modificará sua vida de muitas formas, e algumas vezes isso poderá parecer desagradável. Não deixe que isso a bloqueie. O medo da mudança, de renunciar ao que sempre conhecemos, fizemos e fomos é o que nos impede de nos transformarmos em um ser maior, mais saudável e mais verdadeiramente amável.

20 de abr. de 2011

EVA PERÓN - PRIMEIRA-DAMA DA ARGENTINA




Sem recursos e com pouco instrução, Eva Perón nasceu em  1919 em Los Toldos, Argentina. Sua infância foi pobre, mas digna. Sua mãe, Juana Ibarguera, era uma costureira obsessiva com a limpeza, extremamente organizada e amante do estancieiro Juan Duarte. Depois da morte de Juan, em um acidente de carro, Juana mudou-se com os filhos, todos dele , para Junin, fugindo da humilhação da condição de amante.   Juan Duarte registrou todos os filhos que teve com a costureira como seus, menos Evita. Pouco depois mudaram-se todos para Buenos Aires, onde Eva, como todas as adolescentes sonhava em ser uma estrela de teatro, de cinema.

Eva Perón passou por muitas dificuldades até chegar a ser uma atriz de certo renome no rádio, onde participava de um programa de muita audiência e fazia algumas peças de teatro. Durante uma campanha de socorro às vítimas do terremoto de San Juan, em 1944, ela conheceu  Juan Domingo Perón, Ministro do Trabalho. Tornaram-se amantes, e depois de tingir os cabelos de louro para um filme, o que conservaria para o resto da vida, Eva falsificou seus documentos, transformando-se em Maria Eva Duarte, nascida em Junin, em 1923, para poder casar-se legalmente com o coronel Perón em uma cerimônia íntima e com poucos amigos.

Perón, um solitário que nunca deixava saber exatamente o que sentia, tinha uma personalidade peculiar e ambígua. Sorria sempre, conquistava pelo sorriso , mas o que  lhe  marcava a complexa e ao mesmo tempo  tosca  personalidade era o olhar, olhar típico de caçador, com extrema capacidade em dissimular. Só não sabia que Eva era também uma caçadora e, com o casamento, formou-se ali uma sociedade de idéias e interesses que os levou aos limites do poder, da glória, da riqueza e por fim, da ruína, da desmoralização mas jamais do esquecimento  e da indiferença.
 

Eles precisavam um do outro, com suas virtudes e defeitos.  Através do nome e imagem de Perón, Eva conseguiu a sua ambição de obter uma parte do poder total. Eva Perón foi, na verdade, a grande responsável por medidas reformistas em toda à Argentina. À ela se deve o fato dos trabalhadores passarem a ter segurança social, cuidados médicos estatais, pensões e o voto das mulheres. Deve-se também a ela  o ter expulso as multinacionais do país e a  nacionalização das mesmas.
 
 
Depois de trabalhar duramente nas campanha presidencial que levou Perón ao poder em 1946, Eva foi  à Europa de onde retornou três meses depois com um guarda-roupa repleto de roupas de grife. Uma matéria publicada na revista Life, em 1950, mostra seus inúmeros armários com jóias, peles, sapatos e vestidos de grandes estilistas, o que causou espanto na comunidade internacional.

Essa viagem "promoção" de Eva da Nova Argentina Peronista, sempre teve algo de misterioso, de pouco claro, já que boatos de assuntos do ouro nazista  ou obras de arte desaparecidas nunca ficaram esclarecidas, e ainda hoje não o são.

Famosa por sua elegância e por seu carisma, Evita conquistou para o peronismo a população pobre, a maioria de migrantes rural, a quem ela chamava de "descamisados".
 
 
"Ligando à figura mundialmente conhecida de Evita, uma glória "hollywoodiana" de proporções desmedidas, com a moça simples, a criança ultrajada, podemos chegar a conclusão que Eva foi provavelmente uma personalidade dividida. De um lado, repleto de altruísmo e generosidade, há a moça simples,"revoltada com a injustiça", de outro, no entanto, a mulher seduzida pelo poder.

Como primeira-dama, Evita desenvolveu um trabalho intenso no lado político, criando o Partido Peronista Feminino , dando direito de votos as mulheres, em 1947. Ao mesmo tempo, do lado social , desenvolveu a Fundação Eva Perón, onde trabalhou cerca de 18 horas por dia, distribuindo alimentos, roupas, construindo hospitais, escolas, lares para mães solteiras e asilos para idosos. Apesar de ter ganhado a simpatia das classes mais baixas, Eva era atacada pela oposição, que transferiu para ela a antipatia e rejeição que sentia por Perón.

No âmago de suas preocupações sociais mais profundas,  encontra-se uma infância pobre e uma mãe humilhada pelas circunstâncias. Promovida pelo peronismo e sendo principal fator de legitimação deste, a figura de Eva irá se confundir com a de uma grande estadista. Eva torna-se mais importante que a própria imagem da Argentina real, uma vez que esta imagem é representada revestida de um aparato  e de uma glória que não correspondem à realidade social da época". 

Em pouco tempo, a estrela de Evita parecia ameaçar o próprio marido.  Sua fama provocou uma reviravolta política quando, durante um comício marcado pela presença do casal, a multidão gritava a favor de uma chapa eleitoral composta por Juan Perón, presidente, e Evita, mãe dos pobres, como vice.

Mas, a essa altura Evita já sofria de uma câncer no útero. Além disso, o casal entrou em crise pois Perón olhava com grande desconfiança e receio a ascenção política de sua própria mulher. A tensão instalada no próprio relacionamento e a doença impediram que Evita Perón aceitasse o convite feito pela população. Depois disso Evita se recolheu aos aposentos presidenciais para viver os últimos dias de sua terrível agonia.

O mais impressionante na história da vida de Eva foi o caminho meteórico que ela percorreu na vida pública. Entre a total obscuridade ao mais absoluto resplendor pessoal e político da vida e em seguida a morte, tudo ocorreu em apenas 7 anos. Nesse curto período ela saiu do anonimato para se tornar uma das mulheres mais importantes e poderosas do mundo. Na breve existência (morreu aos 33 anos) há muitos mistérios, muitos fatos obscuros mas há principalmente uma personalidade tragicamente marcante.
 

"Figura chave de um regime paternalista e demagogo, Evita resiste, no entanto, como uma imagem ao mesmo tempo alheia e superior ao mesmo. Mais do que uma estadista, mais do que um pivô ou um esteio sobre o qual o governo de Perón se apoia, Evita ganha voz própria porque  ela encarnou em si uma série de ambições e  pretensões sociais. Sua transcendência está consubstanciada na sua fantástica ascenção sócio-política. Uma bela mulher, que venceu na vida através dos mecanismos próprios de uma mulher, só poderia espelhar um  sistema de poder centrado na sedução. E  só através da sedução coletiva das massas , e do fascínio,  da ascese que esta sedução acarreta, que pode firmar-se um regime deste tipo".


Em determinado momento, fruto da criação de Eva Duarte, surgiu o personagem "Evita". A própria Eva tinha consciência da existência autônoma de sua personagem, que ela transformou em uma segunda personalidade: para os "descamisados" Evita nunca foi uma líder ideológica. Para eles ela era mais. Era mais que a mulher do grande Perón,  era a líder espiritual da nação argentina, quase uma santa.
 

Para muitos, Eva Perón  foi, na verdade, a única voz retumbante no coração do povo pobre  e trabalhador da argentina; foi, para os miseráveis, a única referência confiável e capaz de unir, se quisesse, com um gesto apenas, todas as vontades numa só, todas as vozes em uma só, a voz do povo explorado e espoliado pela classe rica e insensível às suas necessidades mais elementares.



Eva Maria Perón atingiu um poder absoluto na Argentina entre 1948 e 1951. Era ela quem comandava as operações de todo o staff  Perón. Jamais uma mulher em qualquer parte do mundo conseguira tanto poder em tantas áreas distintas e sensíveis.

Evita morreu  em 1952, arruinando todas as possibilidade de preservação do peronismo.  A sua morte se seguiu uma das maiores comoções públicas  já registradas na Argentina. Em um ataúde com tampa de cristal seu corpo foi trasladado para a sede da CGT (principal organização sindical  do país), onde intermináveis multidões de "descamisados", a gente simples do povo, desfilaram em massa compacta, dias e noites seguidos, para o último adeus.
Em sua homenagem já foram compostas duas óperas, um filme e uma música: Perón não é mito, é apenas uma figura histórica. Ninguém se interessa por Péron profundamente hoje em dia, a não ser que seja um historiador. Mas todos conhecem Evita, e seu jeito de ser, seu look. Perón pode ser discutido hoje em dia , mas Evita é intocável. É um mito.

19 de jan. de 2011

ESTATUTO DA MULHER CASADA

Qual não foi minha surpresa quando, estudante de Direito, na década de 70, deparei-me com o Estatuto da Mulher Casada, de 1962. Quer dizer, até poucos anos atrás eu seria impedida de fazer várias coisas por minha própria vontade, à não ser que houvesse consentimento do meu marido(sim, eu já era casada).

O Codigo Civil de 1916 definia a mulher casada como incapaz de realizar certos atos, dependento da aprovação de seu marido, inclusive a de ter profissão e de receber herança.

Conhecido como Estatuto da Mulher Casada, a lei contribuiu para a emancipação feminina em diversas áreas: o marido deixou de ser o chefe absoluto da sociedade conjugal. O artigo 6º que atestava a incapacidade feminina para certos atos foi mudado. Além de tornar-se economicamente ativa sem a autorização do marido, a mulher passa a ter direito sobre seus filhos,compartilhando do pátrio poder  e podendo requisitar a guarda em caso de separação.
 
Fazendo um parêntese, um caso pessoal, ocorrido com minha avó paterna. Ela tinha quatro filhos do primeiro casamento, mas ao casar-se perdeu o pátrio poder para o padrasto. Era ele, o padrasto, que decidia tudo não só em relação aos filhos, como à herança que o falecido marido havia deixado. Eu era garota quando ouvi essa história, e não compreendia nada de lei, e menos ainda de direitos femininos, mas essa situação me deixava estupefata.
Com essa mudança do Estatuto da Mulher Casada  a esposa deixou de ser tutelada pelo marido e pode decidir sua própria vida(estou falando aqui no sentido legal, porque no sentido das tradições e o social era completamente diferente).

Até a pouco tempo as mulheres não tinham direito a quase nada. O direito do voto pela mulher surgiu em 1932 e em 1970 começou o movimento feminista. Essa luta das mulheres de sair da escravidão teve como objetivo equiparar homens e mulheres, embora sempre haja algumas extrapolações.
 
Podemos fazer coisas incríveis, quem sabe diferentes, quem sabe melhor ou pior,vai de cada uma. Esta luta deve ser considerada como uma luta de libertação do "estigma de escrava". Atualmente , os cônjujes têm os mesmos direitos e deveres em relação a casa, filhos e bens. A mulher não pode praticar apenas as ações que o seu marido também precisa do consentimento para realizar, p. ex., contrair obrigação que implicam alienação dos bens do casal.

O estatuto da Mulher Casada foi revogado, o novo Código Civil está em vigor desde 2003 e na parte que rege o direito de família foram respeitados  as regras da constituição de 1988 que equipararam homens e mulheres. Somos cidadãs como qualquer outro. Pelo menos jurídicamente!!!

27 de dez. de 2010

A MISOGENIA E A MULHER


Misogenia é o ódio à mulher. São homens que odeiam e repelem o sexo feminino. É simples aversão a tudo que é feminino.
 
"Tudo que os homens escreveram sobre as mulheres deve ser suspeito, pois eles são, a um só tempo, juiz e parte".                                Toulain de la Barre.

Devemos lembrar que os livros sagrados eram o Direito para os povos antigos, que neles acreditavam, isto é, eram a sua lei. Esses povos pensavam e agiam segundo seus ditames.


Em algumas sociedades antigas a mulher era venerada. Mas com o advento da sociedade patriarcal, a mulher passou a ser acusada pelo sexo oposto de ter introduzido o pecado, a desgraça e a morte na terra. A Eva judaica seria responsável pelo pecado original, pelo desaparecimento do paraíso terrestre. 

Desde os primórdios do cristianismo a mulher já era considerada sinônimo de perdição pelos líderes da Igreja. A sexualidade era pecado, a virgindade era exaltada.Já dizia Santo Agostinho "o  corpo humano possui uma alma humana assexuada e um corpo assexuado".
 
A Idade Média Cristã aumentou a misogenia. A Virgem Maria foi colocada num pedestal, mas teve sua sexualidade desvalorizada.
 
As ordens mendicantes, no sec. XIII, propagaram uma onda de misogenia , que no sec. XVI, tem seu impacto aumentado pela reforma protestante. Os  clérigos, presos à castidade tinham receio do sexo feminino, escrevendo sobre esse perigos e esses escritos oprimiam e hostizavam a mulher.
 
Havia uma guerra santa contra a aliada do diabo. Muitos discursos foram proferidos para confirmar  a inferioridade da muher, com base na Bíblia.

 
O discurso médico fala da inferioridade física e biológica das mulheres. O discurso jurídico procurava  apoio na medicina e na Igreja. Através disso criavam leis que aumentavam as misogenia, criando várias interdições à mulher, que não possuia poder jurídico, não podia exercer a medicina, a magistratura, etc, e o homem era o cabeça do casal.
 


Vamos colocar alguns exemplos da sistematização de textos sagrados e de  Direito ao longo dos tempos:
  1. Direito Familiar da Suméria(2465-2347 a.C.):   "Se a mulher odeia seu marido e diz:''Tu não és meu marido' será atirada ao rio".
  2. Código de Hamurabi(1730-1636 a.C.), rei da Babilônia. Seu codigo era considerado de inspiração divina.  "o marido tem certos direitos sobre a mulher...Pode submetê-la à servidão na casa de seu credor...Se uma mulher desatende o seu marido, ele pode escolher entre repudiá-la perante o tribunal, uma indenização ou declara ao juiz que não a quer repudiar, ficando então como escrava".
  3. Bíblia (720 a.C.) "Quando um homem toma uma mulher e se casa com ela, e então não achar graça em seus olhos, por nela encontrar coisa indecente, far-lhe-ás uma carta de repúdio, e lhe dará na sua mão, e a despedirá de sua casa".
  4. Tertuliano, um dos pais da Igreja: "Sois a porta do inferno...Sois aquela que persuadiu aquele que o diabo não ousava atacar...Sabereis que sois cada uma de vós uma Eva? A sentença de Deus sobre vosso sexo subsiste nesta época: a culpa, necessariamente, subsiste também".
  5. Confúcio(551-474 a.C.)  "O marido tem o direito de matar a mulher. Quando uma mulher fica viúva deve cometer suicídio como prova de castidade"
  6. Paulo, o apóstolo: "Durante as assembléias as mulheres devem permanecer em silêncio, com toda a  submissão. Não permito que a mulher ensine , ou domine seu marido".
  7. Martinho Lutero(1483-1546): "Que há por aí,  homem ou Deus, capaz de sustentar que a mulher pertence ao gênero humano?"

  8. Cod. Civil Napoleão: "A natureza fez das mulheres nossas escravas; o marido tem o direito de dizer à sua mulher: Não sairás de casa! Não irás ao teatro! Não te encontrarás com esta ou aquela pessoa! Quer dizer teu corpo  e tua alma  me pertencem".

Esses são apenas alguns exemplos, mas essa forma de sexismo persiste até os dias atuais, e mais comum do que parece à primeira vista, porque as mulheres estão tão acostumadas  a que as desprezem ou inviabilizem que não se dão conta das muitas formas diferentes como negam a sua dignidade e pertinência ao gênero humano ou, pior ainda, como negam a sua própria existência.

Ainda hoje basta abrir qualquer jornal  ou mesmo escutar variados tipos de "música" para ver como a mulher é desprezada. E o pior é que as mulheres ainda saem por aí cantando as ditas "músicas", como se fosse  uma exaltação ao sexo feminino...






8 de set. de 2010

A PAPISA JOANA


A muito tempo a Igreja tenta negar a existência da papisa Joana, a mulher que ocupou o trono do papa, mas  as evidências não deixam dúvidas que existiu mesmo uma mulher que ocupou o trono papal.


Joana nasceu em 914,  séc. IX, no peródo conhecido como Idade das Trevas, uma época brutal, de ignorância, miséria e superstição sem precedentes.


Os países europeus como os conhecemos  não existiam, nem tão pouco seus idiomas, mas somente dialetos locais, sendo a língua culta o latim.


A vida nesses tempos conturbados, depois da morte de Carlos Magno, era um caos só, com a economia falida, guerras civis e invasões dos vickings e sarracenos.


Principalmente para as mulheres, que não tinham quaisquer direitos legais ou de propriedades. A lei permitia que os maridos batessem nelas e as estrupassem e uma mulher letrada era considerada não só uma aberração  como um perigo.


Procurando fugir deste destino, Joana, que era muito inteligente  e havia aprendido a ler escondido com seu irmão mais velho, logo percebeu que naquele mundo não havia lugar para ela, pois era uma sociedade só de homens, todos os direitos estavam com eles e eram para eles.


Assim sendo, resolveu disfarçar-se corajosamente de rapaz quando adolescente, e ingressou num convento beneditino, sob o nome de "irmão" João Ânglico. Foi assim que se  destacou como erudito e médico, chegando a tornar-se médica do próprio papa.


Morreu ao dar a luz quando presidia uma procissão solene pelas ruas de Roma. À partir daí os relatos divergem: segundo alguns teria morrido apedrejada pela multidão indignada; para outros foi encerrada, juntamente com seu filho no castelo papal, até o fim de seus dias. E para outros tanto ela como a criança morreram no parto.


Ao longo dos séculos muitos negam sua existência, contudo é considerável o número de documentos que atestam sua passagem pelo trono papal.


Mas mais importante é que numerosas mulheres que queriam ter uma vida digna, tiveram de se disfarçar de homem, por não ter direito algum.


No séc. III, Eugênia, filha do prefeito de Alexandria, ingressou num monastério disfarçada de  homem, e chegou a alcançar a posição de abade. O disfarce só acabou sendo descoberto porque ela foi obrigada a revelar o seu sexo como último recurso  para refutar a acusação de ter deflorado uma virgem.


No séc. XII, santa  Hildegunda, sob o nome de José, tornou-se monge na Abadia de Schonau e viveu entre os irmãos sem ser descoberta até sua morte, muitos anos depois.


Exemplos mais modernos de mulheres que se fizeram passar por homens:
1-Mary Reade, que viveu como pirata no ínício do séc.  XVIII;
 
2-Hannah Snell, soldado e marinheiro na marinha britânica;
 
3-uma  mulher do séc. XIX de nome desconhecido que, sob o  pseudômino de James Barry, ascendeu ao cargo de inspetor-geral dos hospitais britânicos;

4-Loreta  Janeta Velasquez, que lutou ao lado dos confederados na batalha de Bull Run, sob o nome de Harry Buford;

5-Recentermente, Terezinha Gomes de Lisboa, fez-se passar por homem durante dezoito anos; soldado altamente condecorado, ela alcançou a patente de general no exército português e foi descoberta apenas em 1994, ao ser presa por acusações de fraude financeira e forçada pela polícia a se submeter a um exame médico.